Pesquisar este blog

domingo, 18 de abril de 2010

Releituras -Bem.

Uma mulher e uma criança cantando uma música com o som ligado, o carro em alta velocidade. Era uma noite chuvosa.
Ao acabar a música riem.
-Jean já mandei colocar o cinto.
-Eu não gosto.
-Pegue aquele CD para mamãe.
Ele pega e entrega a ela.
-Amanhã vamos à casa de vó Nide?
-Não sei; depende se amanhã eu não for para o jornal, vamos comer...
-Batata frita! - falam juntos.
Aparece um ônibus na contramão, ela vira o carro, e este capota várias vezes até parar e ficar só o silêncio nessa noite chuvosa.
No hospital ela abre os olhos e ver a Mãe, Dona Neide e o irmão Cláudio.
-Filha, graças a Deus você acordou.
-O que aconteceu?
-Você capotou o carro...
-O meu filho?
Dona Neide olha para Cláudio.
-Ele está bem, descanse. Amanhã você faz alguns exames e talvez já saia na próxima semana.
Ela deita e fecha os olhos, ao voltar a acordar ela ver o filho se aproximando com um buquê de rosas. Ela sorrir com lágrima nos olhos, se abraçam.
-Estava já com saudade. Você está lindo! Eu não pensei em mais nada, a não ser te proteger naquela hora.
-Eu sei... Estou aqui com você agora.
No dia seguinte ela acorda e não ver o buquê de rosas.
-Bom dia. Como se sente? - a enfermeira.
-Onde está o buquê de rosas que o meu filho deixou para mim?
-Não tinha nenhum buquê quando entrei aqui Dona Patrícia.
-Um buquê não some de uma hora pra outra. Criou asas?
-Vou procurar saber, agora se acalme. É melhor para a sua saúde.
Uma semana depois ela recebe alta, entra no banco traseiro do carro, o irmão no banco do motorista, ela deixa a porta aberta para o filho entrar, este entra e se dão as mãos.
Ela chega em casa, Jean sobe logo para o quarto. Ela anda por toda a casa e conversa com a empregada.
-Nossa fiquei todo esse tempo em coma.
-Aconteceu muita coisa senhora.
Ela entra no quarto do filho, abre o armário, não há mais roupas dele. Ela desce.
-Socorro, onde estão as roupas de Jean?
-Dona Neide mandou dá para um abrigo.
-Aqui o dinheiro, compre roupas novas para ele.
-Mas...?
-Está esperando o quê?
No almoço.
-Cadê o prato de Jean? Também deram?
-É que...
-O meu filho almoça comigo. -colocou o prato na mesa.
Os dois na mesa
-Não vai comer? Mandei fazer o seu prato preferido.
-Estou sem fome, onde estou não preciso disso.
-Não vai estrear nenhuma das roupas que mandei comprar? Não gostou delas?
-Eu te amo mamãe, me perdoa por não ter dito isso antes.
-Eu te amo também filho. Muito... Muito.
Ela enchuga os cabelos dele depois do banho.
-A sua orelha ainda está suja. Tem que voltar pro banho. -faz cócegas nele.
-Não... Ai. -rindo.
Ele deitado na cama, ela deita com ele.
-Era uma vez num planeta muito distante que tinha um menino muito valente...
-Que havia vencido um dragão. Essa você já contou, não vale.
Ela rir.
-Acho que não estou mais uma ótima contadora de história.
Ela ao acabar a história boceja.
-Não vai dormir?
-Quero olhar mais uma vez o seu rosto para nunca mais esquecer dele.
-Você sempre vai poder ver o meu rosto querido, que besteira. - alisa os cabelos dele - Você é todo o seu pai, que pena você não poder ter o conhecido. Ele dizia que iria jogar muita bola no campo aí fora com você.
Ao amanhecer Jean sofre um acidente, um jarro cai em seu pé.
-Filho! Se machucou? - ela se espanta por ele não estar ferido.
Ela olha para ele.
-Eu estou bem mamãe.
Jogam cartas a tarde toda. Uma semana depois Dona Neide vai visitar a casa da filha e a empregada a leva até a janela para ver a filha empurrando uma cadeira de balanço sem ninguém sentado nela.
-Ela conversa sozinha. Não sai do quarto o filho. Eu estou com medo, Dona Patrícia não está bem.
Dona Neide marca um almoço com o filho num restaurante.
-Você contou a Patrícia que Jean morreu naquele acidente?
-Não. - começa a chorar Como vou contar que aquele menino que corria pela casa toda, brincando, sempre sorrindo, não está mais entre nós se nem eu acredito que isso aconteceu? Ela morreria mamãe, ela não aguentaria mais essa perda.
Dona Neide visita à filha, quem abre a porta é Patrícia.
-Mãe.
-Posso entrar?
-Claro.
Entram e sentam-se no sofá.
-Jean não demore no banho! Sabe Jean não parou com a mania de brincar debaixo do chuveiro. - ela nota o rosto fechado da mãe - O que foi?
-Jean está morto.
-Que brincadeira é essa? Eu terminei de falar com ele. Você quer vê-lo?
-Chega Patrícia! - ela chorando - Jean foi arremessado para fora do carro, ao chegar à ambulância no local ele já estava morto, morto, lamento. Ma você tem que compreender isso.
Ela sobe para o quarto do filho, o procura.
-Jean.
Entra no banheiro, o banheiro está seco.
-Não! - ela dá um grito e começa a chorar.
A mãe aparece e a abraça.
-Eu quero ver onde ele está enterrado.
Ela ficou um bom tempo parada em frente ao túmulo do filho para ver se acreditava no que os seus olhos estavam vendo.
Em casa, ela de frente ao espelho com os olhos vermelhos de tanto chorar, sente a mão do filho tocando a sua mão, ela vira o rosto e o ver.
- Por que não eu? Era para eu morrer, não você. Isso é injusto, não são as mães que tem que enterrar os filhos. Eu daria tudo para ter você de volta.
-Eu sei mamãe. Eu vim dizer que não vou mais aparecer, eu só queria viver o que eu vivia e sentia que era o quanto era feliz com você. Eu não vou está mais nessa casa, mas vou está aqui, no seu coração.
-Você sentiu dor?
-Eu nem senti, foi rápido, eu estou bem, estou com o meu pai.
Ela começa a chorar.
-Não vá, fica. Não me deixe. Você é o meu bem mais precioso, você sabe disso.
-Eu sei. - beija o rosto dela.
Ela fecha os olhos, ao abrir, ele não estava mais lá.
Ela preparando o almoço com a mãe.
-Jean falou comigo outra vez, disse que está bem, que está com o pai. - começa a chorar.
-Eu adoraria acreditar que você viu o Jean, que falou com ele, esteve com ele. Eu adoraria que ele não fosse só uma lembrança de quando ele corria pela casa gritando Vovó... Vovó e comendo a batata frita que eu fazia especialmente pra ele. Eu também gostaria de estar com ele.
-Eu falei com ele, acredita em mim, eu não estou louca.
-Os mortos não voltam filha.
Alguns anos depois.
Num hospital, Patrícia e colegas de trabalho visitam um colega que está internado com pneumonia na ala para soropositivo.
Ela ao sair ver uma mulher discutindo com um médico.
-Você disse que o meu filho não morreria.
-Lamento, mas saiu do controle, ele não se recuperou como esperávamos.
-Quero o meu filho de volta.
O médico a deixa, ela chora. Patrícia se aproxima.
-Desculpa, não teve como não ouvir.
A senhora olha para ela.
-Eu também perdi um filho, e eu não tive a oportunidade de me despedir dele, de me preparar pra esse sofrimento. Ele morreu num acidente de carro no qual eu sobrevivi e você mesmo tendo esperanças de que seu filho se curasse da AIDS sabia que um dia que esse dia chegaria. Não quero comparar as nossas dores, não cabe essa hora saber de quem é a dor maior. Ensinaram a nós mães a colocar pessoas no mundo, mas não a perdê-las. Sabe que mesmo com essa fatalidade que ocorreu em minha vida, eu fui abençoada, porque tive a oportunidade de depois de me despedir do meu filho. Não são todas as mães que tem essa oportunidade.
-Que espécie de pessoa você é? Louca?
-Não, eu só quero lhe dizer que o seu filho está bem, está sorrindo agora para você. Ele é alto, forte, cabelos e olhos castanhos, tem a sua boca e os olhos do pai e ele detesta o nariz dele, fazia o que mais gostava, que era tocar bateria, ele se tratava só por sua causa, pois ele não gostava do sofrimento que isso causava nele. Ele se libertou.
-Como você sabe de tudo isso sobre o meu Marcelo? - chorando.
-Ele me contou, está agora do meu lado.
-Deixa vê-lo, quero vê-lo pela última vez... - se abraçam.
A mulher depois entra no quarto onde o filho estava e ver em cima da maca uma rosa, começa a chorar. Todo o dia Marcelo dava rosas vermelhas a ela, pois sabia que as rosas vermelhas eram as preferidas dela, ela beija a rosa.
-Obrigada filho.
Em casa, numa mesa no jardim reunidos Patrícia, Neide, Cláudio e a esposa com o filho de 4 anos.
-Não vai casar novamente Patrícia? É jovem, pode ainda ter filhos. - A esposa de Cláudio.
-Acho que nada vai recuperar esse vazio que sinto no meu peito.
-Mas um filho e um marido não vão retirar o espaço já ocupado no seu coração por Jean e Fausto. - A mãe diz.
-É minha irmã, todos têm o direito à felicidade, eu tenho a certeza que eles não querem te ver assim. - O irmão.
-Mas quem disse que não sou feliz? Sou feliz, pois poucos tiveram a sorte de ter uma filho tão amado e um esposo tão devotado quanto eu tive.
-João Gabriel não entre aí. Aí esse menino.
-Deixa que vou pegá-lo.
Patrícia entra em casa e encontra João Gabriel chorando diante de um retrato em que havia Jean e ela abraçados.
-Sua mãe está te chamando para voltar para sua casa.
Ele alisa os móveis e vira-se pra ela.
-Ma esta é minha casa.
Ela se aproxima dele, se abaixa para ficar na mesma altura que ele.
-Onde está o seu pai?
Ele sobe a escada, ela o segue, ele entra no quarto de Jean, abre uma gaveta e entrega um desenho a ela, que o Jean desenhou, o pai e ele jogando bola. Ela se emociona e se segura na parede, coloca a mão na boca.
-Obrigada.
Saem do quarto, fecham a porta. Ela coloca uma da mãos na cabeça dele e somem pelo corredor.

Nenhum comentário:

Central blogs

div align="center">Central Blogs

Colméia

Colmeia: O melhor dos blogs

Ueba

Uêba - Os Melhores Links