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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Memória em surto.

Este é o último Memória em surto, obrigado a todos que comentaram e aguentaram as minhas histórias cheias de esquisitices. tudo que foi escrito apesar de não parecer é a pura verdade, por isso o nome Memória em surto.
Este Memória em surto diferente dos outros não vai ter intuito de fazê-lo rir caro leitor, pois vou contar uma história que aconteceu comigo e mexeu em minha vida.
Minha mãe criou eu mais dois irmãos sozinha, sem ajuda de um pai. foi pai e mãe ao mesmo tempo. ela como toda mãe não quis que os seus filhos cometessem os mesmos erros que ela cometeu, por isso utilizou-se da super-proteção, chegando até a impedir que os filhos vivessem. Eu tive uma adolescência que não conhecia nada, eu tinha medo das ruas, só saía com meus irmãos, introspectivo. Até hoje tenho mais coragem de escrever coisas mais do que falar.
Minha mãe vivia para o trabalho, não saía na rua, não chorava, não desabafava o peso que criar três filhos sozinha. Um certo dia ela acordou certo como era de costume para lavar roupa e passa mal. A levamos para a cozinha, ela não ouvia, os olhos dela queriam fechar, não conseguia ficar em pé, nem conseguia ficar sentada numa cadeira.
Aquele dia foi o dia mais desesperador da minha vida, não saber o que fazer, ver sua mãe morrendo na sua frente. Chamamos vizinhos e os vizinhos chamaram a SAMU ( Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e essa levou a minha mãe ao hospital Roberto santos. Lá não tinha maca para ela, ela utilizou a maca da própria SAMU, ficou no corredor por não ter vaga e foi constado dois AVCs. E ela por causa disso ficou com a boca torta e não movimentava e nem sentia o lado esquerdo. Graças a mesma SAMU, eles conseguiram transferi-la para um hospital nas Cajazeiras, o Jaar Andrade.
Lá ela começou a fazer a fisioterapia e lá eu fiz a minha primeira visita a ela ( eu não tinha a visitado no Roberto Santos). Ela se encontrava na UTI e eu desabei a chorar ao vê-la entubada, minha gordinha tão magra, não parecia em nada aquela mulher tão forte. Fui consolado por uma enfermeira e depois pela minha irmã, que me abraçou também chorando.
depois ela saiu da UTI e a visitei, ela estava acordada e me viu e nem perguntou como eu estava, apenas disse que estava com fome e queria comer.
Passou-se mais um tempo e um dia ao entrar em casa, encontro minha mãe dormindo. Ela pediu para ir ao banheiro, mas não conseguir levantá-la, ela pesava muito e não se mantinha em pé. Foi horrível, você não poder ajudar a sua própria mãe, me sentir o homem mais inútil do mundo. Tive que pedir a ajuda de vizinhos, para sair com ela precisava de três para ajudar.
Depois o meu tio conseguiu colocá-la no Hospital Sarah. Em uma semana ela começou a caminhar com o andador, passando depois para a bengala. Lá ela descobriu que poderia fazer coisas sozinha. Lá conheci outras pessoas e pode notar que havia problemas maiores que o meu.
Agradeço muito a todas as enfermeiras, copeiros, ao pessoal da cozinha ( nessa época comi tão bem, a comida não parecia em nada com a de hospital) e principalmente a Elisa, que foi a fisioterapeuta da minha mãe e todos os outros fisioterapeutas. Ela ficou mais de um mês lá e voltou pra casa com algumas coisas que ganhou. E eu ganhei uma experiência incrível, que não existe só o meu tempo, mas também o do outro ( sei que ainda perco a paciência com o tempo que a minha mãe demora para fazer as coisas) Lá minha mãe deixou de usar fralda, que era um gasto tremendo.
O Sarah gosta de ouvir os pacientes e seus acompanhantes e em troca busca comprometimento e colaboração tanto do paciente quanto do acompanhante. Agradeço a todos os amigos que ajudaram comprando fralda e ajudando de alguma maneira. É nesses momentos que descobrimos os amigos.
Apesar de todo o sofrimento, eu rir lá, me emocionei com a história dos outros pacientes e vibrei por cada superação de cada paciente. Não vou me esquecer da biblioteca de lá, da varanda que tinha uma paisagem linda. Não vou me esquecer das crianças na cadeira de rodas que mesmo com os problemas não deixavam de ser crianças. Não vou me esquecer dos rostos deste cenário que fizeram parte da minha história, do que sou hoje.
Não posso deixar de mencionar, Jairo, o fisioterapeuta atual e se depender de mim e da minha mãe o para sempre amigo e quem sabe vizinho, rsrs.
Hoje minha mãe ainda anda com o auxílio de uma bengala, meus irmãos casaram, sobrando em casa eu e minha mãe. Tive que me acostumar ( e ainda estou no processo de aprendizagem). Minha mãe é uma manteiga derretida, não é mais aquela durona, esquece algumas coisas, as vezes não se aguenta chegar ao banheiro para fazer xixi.
Guardo mágoas dos meus irmãos, pois eles não sentaram para conversar comigo e me largaram com a minha mãe. Eles se achavam cheios de problemas, mas não perguntaram o que eu carregava nas costas.
Guardo mágoas de coisas que eu ouvir da minha mãe que sei que não merecia ouvir, mas sei que foram da boca pra fora, só para me machucar.
Nunca vou abandonar minha mãe, isso prometi a mim mesmo. tenho muita vontade de sentar com ela e conversar, nãos ei se ela vai aceitar o estilo de vida que escolhi pra mim, que me faz feliz. Só tenho a certeza de uma coisa ela vai comigo para onde eu for até o fim dos meus dias ou dos dela.
Antes tinha medo da minha mãe, não a questionava, preferia me abrir com um amigo ou até mesmo com um estranho do que com ela. Isso tenho certeza que foi pela educação que eu recebi. Hoje esse medo deu lugar a coragem, a conhecer minha mãe mais. Não adiantou tanta proteção.
Sei também que tenho parcela de culpa em tudo isso, pois um dia tentei suicídio, tomando remédio para abaixar pressão, vários comprimidos. Minha mãe escondeu o remédio e passou a não tomá-lo.
Sei também que nada acontece por acaso, minha mãe tinha que passar por isso, para mostrar a ela que ela não pode escolher pelos seus filhos, que ela não tem domínio sobre todas as coisas, que ela não é a dona da verdade, que ela tem que se divertir mais, que existe problemas maiores do que o dela.
Eu sei que talvez ela não aprenda tudo isso nessa vida, pela própria teimosia dela, eu sei disso, pois sou muito parecido com ela em certas coisas.
Por fim, desculpe pelo texto grande e até confuso, pois fui escrevendo mais com emoção do que com preocupação. É muito difícil me lembrar de tudo que passei com a minha mãe e ainda passo, tive a minha vida mudada completamente, tomei responsabilidades da qual não fui preparado, não teve um aviso prévio pra mim.
Desculpe por estar contando isso, quando criei o blog, o meu objetivo não era esse. Mas achei que deveria escrever isso, sei lá vá que tenha alguém passando por isso também, aí posso ajudar com a minha experiência. Por fim nunca espere acontecer uma coisa dessa para dizer que ama sua mãe. Eu no hospital com medo de perdê-la eu disse que a amava e graças a Deus ela está comigo e todos os dias eu digo: " Eu sou louco por essa gostosa" " Eu te amo minha gordinha".

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